Beija-Flor é campeã do Carnaval do Rio com desfile politizado
14/02/2018 - 20h28 em Carnaval

Escola de Nilópolis fez críticas à corrupção e à exclusão social no país

No Carnaval dos protestos, a Beija-Flor veio para chocar com um desfile de tom político e conquistou o título deste ano do Grupo Especial do Carnaval do Rio nesta quarta-feira (14). Tuiutí e Salgueiro ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

 

A escola fez um desfile no que chamou ser "contra tudo o que está aí". Havia fantasias criticando impostos altos, uma alegoria representando a Petrobras, ratos em referência a políticos e encenações da rotina de violência no Rio, com representações de crianças em caixões e mães chorando por seus filhos policiais mortos.

 

Neguinho da Beija-Flor, lendário puxador de samba da escola, comemorou a conquista dizendo que o título se justifica pela "crítica ao que está acontecendo no país, poucos com muito e muitos com pouco", disse.

 

 

Mesmo levando um forte discurso contestador à Sapucaí, a Beija-Flor tem como presidente de honra Aniz Abraão David, o Anísio da Beija-Flor, condenado pela Justiça a 48 anos de prisão por ser um dos chefes da máfia do jogo do bicho no estado do Rio de Janeiro. Ele está em liberdade.

 

Neste ano, a Beija-Flor conquistou seu 14º campeonato, ocupando o posto de terceira maior vencedora do Carnaval carioca (atrás da Portela e Mangueira). A escola, porém, é a maior campeã na era da Sapucaí, iniciada em 1984.

 

A agremiação de Nilópolis fez sucesso com o público, que seguiu cantando o samba após o fim do desfile e chegou a receber até aplausos de um grupo de jurados, com um enredo que teceu críticas à corrupção no Brasil.

Com o título, a Beija-Flor repete feito de 2003, quando fez um Carnaval em homenagem ao então presidente Lula, que acabara de assumir. Foi o último desfile de tom político no Rio de Janeiro. A passagem da escola pela Marquês de Sapucaí foi um desfile-manifesto. Um dos carros, que teve como tema o "caos social" no Brasil, apresentou a estátua de um pedinte bêbado e presidiários com telefones celulares.

 

Este ano, a Sapucaí foi marcada por desfiles de forte cunho político. A Paraíso doTuiutí lembrou os 130 anos da Lei Áurea (1888), questionando se a escravidão foi, de fato, extinta no Brasil. Para tentar responder essa pergunta, a pequena escola do Rio de Janeiro criticou o presidente Michel Temer, as reformas trabalhista e da Previdência e a exploração do trabalho.

 

A comissão de frente, talvez a mais marcante do Carnaval, trazia uma coreografia de escravos amordaçados trazidos da África se transformando em sábios pretos-velhos com poder de cura.

 

O último carro do desfile trouxe um destaque fantasiado do presidente Michel Temer (MDB) como "vampiro neoliberalista". A ala Manifestoches tinha componentes fantasiados de patos, sugerindo que manifestantes foram fantoches em protestos políticos.

 

Outra ala lembrava do trabalho informal, numa referência explícita à reforma trabalhista.

 

Com tudo isso, a Paraíso do Tuiutí conquistou o segundo lugar na disputa, colocação que poderia ser considerada surpreendente para a escola que entrou no Grupo Especial no ano passado, quando ficou em 12º lugar. Naquele ano, o último carro alegórico da escola perdeu o controle ao entrar na Sapucaí e prensou 19 pessoas, uma delas morreu.

 

O terceiro lugar neste ano ficou com a Salgueiro, que exaltou as mulheres negras.​

 

As escolas rebaixadas foram este ano foram a Grande Rio e a Império Serrano. Vencedora do grupo de acesso, a Viradouro volta à elite do Carnaval carioca em 2019.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/02/beija-flor-e-campea-do-carnaval-do-rio-com-desfile-politizado.shtml

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